CANTO DE FRASSINO

Os meus horizontes são de Vida e de Esperança !

Meu Diário
23/01/2007 19h58
RAÚL BRANDÃO NAS ILHAS DESCONHECIDAS
Lisboa, 23 de Janeiro de 2007

Meu cordial amigo,

- ACERCA DA ESTADIA DE RAÚL BRANDÃO E MARIA ANGELINA EM SÃO MIGUEL, NO VERÃO DE 1924 –

Tinha eu os meus quinze anos. Num fim de tarde solarengo passeava com Dona Angelina por entre as macieiras e as laranjeiras da quinta do Alto – em Nespereira, no coração do Minho – após o costumeiro lanche carinhoso com que me agraciava, no fim de uma tarde de trabalho cultural, ajudando a limpar o pó das prateleiras Dostoievskianas, do saudoso Raulzinho Brandão. Era assim que ela o tratava nostalgicamente, como se ele tivesse estado presente na mesma tarefa – conversando comigo animadamente e recordando peripécias inesquecíveis que ela tinha passado com o seu marido.
Nessa tarde contou-me ela, por entre uma ou outra lágrima furtiva correndo de vez em quando através da sua face suave e delicada, a sua chegada à acolhedora Ilha das Sete Cidades. Aconteceu no já longínquo Verão de 1924, aquando da famosa viagem do casal Brandão às Ilhas Desconhecidas. Estavam-se vivendo, na Lisboa Pessoana, os últimos estertores da República fragilizada e consporcada pela vilania dos “barões estabelecidos”, à qual nem o meu augusto antecessor – pelo sangue e pela lavra literária (Bernardino Machado) – conseguiu salvar, mesmo tendo em conta as suas tradicionais perspicácia e bonomia.
Nunca mais me esqueço destas estórias da história humana, sempre comoventes e motivantes, as quais de vezes contribuem para a nossa maturação. A ilustre velhinha – estava na altura preparando o seu segundo “livro de recordações” ( como ela humildamente os classificava ) e que veio a ter o título de «Um Coração e uma Vontade» – ofereceu-me um conjunto valioso de todas as obras já editadas pelo marido e quase todas elas autografadas por ele. Ela tinha uma estimação especial por «Portugal Pequenino», seu primeiro livro ... com a “ajuda carinhosa do Raulzinho” , daí na Literatura Portuguesa aparecer esta obra como bi-autoral. Ela, quando oferecia um exemplar desta obra a alguma pessoa amiga, dizia sempre com comoção: “olhe, é minha e dele”! E então escrevia sempre no frontespício umas palavras muito sentidas e comovidas ... como naquela tarde. Maria Angelina Brandão faleceu com idade já bastante avançada , deixando naquela terra um rasto luminoso de saudade.
Cá recebi, amigo Daniel, o seu “grande livrinho” «Os justos e os Pecadores», o qual agradeço reconhecidamente. Já o li e gostei imenso. É um texto muito importante e esclarecedor sobre as gentes e as almas micaelenses. Aliás, como documento, reconheço ser um excelente suporte de estudo antropológico no campo da mentalidade insular, muito ao gosto de Oliveira Martins e não só.
A razão de eu lhe enviar, em anexo, o texto de R. Brandão foi ter dito ter sido pena que ele não tivesse estado na Maia. Não sei se esteve lá ou não... só sei que Maria Angelina contou-me maravilhas de São Miguel e das gentes micaelenses de temperamento de alma muito similar ao do grande Raúl. Digo “grande” porque, dizia Angelina, estando junto dele, e os dois de pé, apenas chegava com a sua cabeça ao seu coração. Pois ela era bastante baixinha. Casaram os dois – tinha ela quinze anos – e , dizia com graça, a primeira vez que namorou com ele foi ao seu colo... Bom, espero que goste da literatura brandoniana, tal como eu. Provavelmente terá As Ilhas Desconhecidas, talvez. Pelo sim pelo não, aqui lhe envio aquelas duas páginas preciosas, para que leia e ajuíze, ok ?
Não fazia a ideia de que tinha uma filha a viver em Odivelas. Eu vivo a dois quilómetros do “Centro Oceano”. Gostava de a conhecer e de a ter nas nossas relações de amizade. Por favor fale-lhe em mim, dizendo que eu sou um vulgar poeta da sua cidade, tal como Joaquim Sustelo, outro poeta desta terra... e mais uns quantos. Provavelmente herdámos a veia de trovadores dalguma costela de D. Dinis que, como sabe, está sepultado no mosteiro de Odivelas.
Por hoje é tudo. Receba um forte e cordial abraço do especial amigo que muito o considera e estima.

Frassino Machado

Publicado por FRASSINO MACHADO em 23/01/2007 às 19h58

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