CANTO DE FRASSINO

Os meus horizontes são de Vida e de Esperança !

Textos

TROVAS DO ASSOBIO
Alegoria de Carnaval  

Um pouco sem eira nem beira
Passa pela rua um rapaz
Co´ a perna bastante ligeira
E de alguma coisa indo atrás.

Ninguém sabe donde ele vem
Muito menos de que terra é
Nem ele se importa também
Que lhe ponham o nome de Zé.

Aparentemente vai esquisito
Mas parece descontraído
Assobiando, como num rito,
E com um ar de convencido.

Senta-se ao sol da esplanada
E observa quem vai passando,
O servente nem lhe diz nada
E cá o Zé vai, vai esperando.

Passada que foi meia hora,
E por se achar mal servido,
Levantou-se para ir embora
Mas logo foi interrompido.

- Ó você, oh, aí do boné,
O que é que pretende pedir?
- Eu não sou você, chamo-me Zé
E está na hora de eu partir

- Então, não paga a esplanada?
- Eu estava só a descansar
E, como ninguém me disse nada,
Acho que não tenho de pagar

E, recomeçando a assobiar,
Deu meia-volta pra seguir.
O servente pôs-se a lamentar
Mas, por fim, começou a rir

- Ele sempre há cada chanfrado,
Já nem sei em que país estou,
Anda tudo meio desnorteado
E eu não sei se fico se vou:

- Na polícia, é o que se vê
E o fisco está mais que esgotado;
Toda a gente s´ espanta co Zé,
Quem é rico assobia pro lado

- Assobia pro lado a justiça,
Assobia pro lado o hospital;
A prisão, essa, é resvaladiça
Té parece um paraíso-fiscal.

- Assobia, e bem, o economista,
Assobia, e bem, o advogado;
O empresário é vigarista
E o governo assobia pro lado.

- Vejam lá, até os camones
Bem se fartam de assobiar,
Cada dia tocam trombones
Pra mais vistos-gold ganhar.  

- E, então, todos esses banqueiros,
Cada um deles com seu assobio,
Reivindicam serem parceiros
Pra todo e qualquer desafio.

- Dizem pra aí que não há maquia,
Só se for aqui para o Zé,
Se neste país não há franquia
Nos Paraísos canta-se na Sé.

- Dizem pra aí que não há emprego
Vai bater, ó Zé, a outra porta,
Nasceste num país que é cego
E assim andas co´ a vida torta.

- Dizem pra aí que a vida é cara
E não há dinheiro pra gastar
Se queres qualquer coisa rara
Aos chineses vai procurar.

- Dizem pra aí que os impostos
Não chegarão pra Segurança
E não se assobiam os gostos
Em qualquer jeito de balança.

- Dizem pra aí que no Parlamento
Vai uma enorme confusão
Co´ inverdades a todo o momento
Assobiando para a Nação.

- Dizem pra aí que os deputados
Assobiam por não ter benesses
Por isso é que, contrariados,
Só utilizam os SMSs

- E se cá o Zé se indisposta
Desabafando descontente
Assobiam, como aposta,
Aspirina pra toda a gente.

- E, por falar em aspirina,
Farei, já agora, como na escola,
Assobiarei co´ a ritalina
Pra abastecer esta sacola.

- Não há condições, diz o Zé.
- Tens razão, coisa de pouca monta!
- Isto, só mesmo a pontapé,
Diz o rapaz do faz de conta

Pois, pra acabar, dizemos nós,
Se isto não fosse um Carnaval
Ganhar-se-ia levantar a voz:
Fazer de conta, ninguém leva a mal!

Frassino Machado
In TROVAS DO QUOTIDIANO
FRASSINO MACHADO
Enviado por FRASSINO MACHADO em 27/02/2017


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