CANTO DE FRASSINO

Os meus horizontes são de Vida e de Esperança !

Meu Diário
13/08/2011 14h36
A VIDA DA VOLTA E AS VOLTAS DA VIDA

Sempre em frente, por vezes à solta,
Aqui subida ou ali descida,
É mesmo assim a vida da Volta
São mesmo assim as voltas da Vida.

Muitas rodadas nessas estradas,
Muito suor e mais sofrimento
Não há tempo p’ ra gargalhadas
Porque urge vencer o tempo.

A plenos pulmões, em aperto,
Coração nas mãos e aos gritos,
Máquina nem sempre em acerto
Não há lugar para os aflitos.

Cada vez mais longe ‘stá a meta
Por comparsa tem-se a fadiga
Mas uma coisa é mais que certa
Para vencer já ninguém liga.

Há quedas? Sim, até chegar,
Frios, ventos, chuvas e sóis,
Mas para os louros conquistar
Só há lugar para os heróis!

 

Frassino Machado
In MUSA VIAJANTE


Publicado por FRASSINO MACHADO em 13/08/2011 às 14h36
 
03/01/2010 15h56
TER POTÊNCIA NA VERGA
Réplica a um amigo comediante!
 
 
O ter potência na verga
ou ter verga sem potência
eis a sublime questão
que no homem tem essência.
 
Boas novas há por aí
de gigantes mui falidos
mas todavia há os anões
com eles muito compridos.
 
A uns só resta a gasosa
a outros a despedida,
ó como é tão tortuosa
este estafermo da vida!
 
 
Frassino Machado
In MUSA VIAJANTE 
 

Publicado por FRASSINO MACHADO em 03/01/2010 às 15h56
 
14/08/2009 15h17
PASCOAES - UM POETA PARA A ETERNIDADE
ANTOLOGIA BREVE

Sugerida por
Prof. Assis Machado


A MINHA MUSA


Senhora da manhã vitoriosa
E também do Crepúsculo vencido!
Ó Senhora da Noite misteriosa,
Pertence-te este livro comovido;

É teu, doce mulher religiosa;
Ó Dor e Amor! Ó Sol e Luar dorido!
Corpo que é alma escrava e dolorosa,
Alma que é corpo livre e redimido.

Mulher perfeita em sonho e realidade;
Aparição divina da Saudade…
Ó Eva toda em flor, e deslumbrada!

Casamento da Lágrima e do Riso;
O céu e a terra, o inferno e o paraíso;
Beijo rezado e oração beijada …

( Senhora da Noite )


FALA O POETA AO SEU AMOR


Eu venho do Mistério e do Desconhecido…
Por lá meu triste coração andou perdido,
Nesse país que fica além dos horizontes,
Da clara luz do sol, do murmúrio das fontes…

Venho d’ Além do Luar, das nuvens e do Vento,
Eu venho do esplendor e do Deslumbramento…
Venho de percorrer o coração das cousas,
Espíritos sem nome, almas misteriosas.

Venho de percorrer esses lugares virgens,
Onde é um sonho de luz a alma das Origens…
Eu venho dum jardim distante, aureoral,
Onde cresce e floresce a árvore do Ideal.

Nas suas veias corre o sangue dos Poetas
E é alimentada pela cinza dos Profetas.
Seus verdes ramos vêm doirar a eterna luz
E neles faz seu ninho a alma de Jesus…

Trago-te, meu Amor, dessa árvore sagrada
Um farrapo ideal de sombra iluminada,
Para que faças com ele um lenço sacrossanto
Que, de tudo o que existe, enxugue o amargo pranto!


( Sempre )


O POETA


Ninguém contempla as coisas admirado,
Dir-se-á que tudo é simples e vulgar…
E se olho a terra, a flor, o céu doirado,
Que infinita comoção me faz sonhar!

É tudo para mim extraordinário!
Uma pedra é fantástica! Alto monte
Terra viva a sangrar, como um Calvário
E branco espectro, ao luar, a triste fonte!

É tudo luz e voz! Tudo me fala!
Cismo ante o fumo etéreo que se eleva,
Quando a tardinha pálida se cala,
Cheia de medo pressentindo a treva…

Não posso abrir os olhos sem abrir
Meu coração à dor e à alegria.
Cada coisa nos sabe transmitir
Uma estranha e quimérica harmonia!

É bem certo que tu, meu coração,
Participas de toda a Natureza.
Tens montanhas na tua solidão
E crepúsculos negros de tristeza!

As coisas que me cercam silenciosas,
São almas a chorar que me procuram.
Quantas vagas palavras misteriosas
Neste ar que aspiro, trémulas, murmuram!

Vozes de encanto vêm aos meus ouvidos,
Beijam meus olhos sombras de mistério.
Sinto que perco às vezes os sentidos
E que vou a flutuar num rio etéreo…

Sinto-me sonho aspiração, saudade…
E lágrima voando e alada cruz!
É tudo espaço azul, eternidade,
Indefinida luz…


( Vida Etérea )


CANÇÃO DUMA SOMBRA

Ai, se não fosse a névoa da manhã
E a velhinha janela onde me vou
Debruçar para ouvir a voz das cousas,
Eu não era o que sou.

Se não fosse esta fonte que chorava
E como nós cantava e que secou…
E este sol que eu comungo, de joelhos,
Eu não era o que sou.

Ai, se não fosse este luar que chama
Os espectros à Vida, e se infiltrou,
Como fluído mágico, em meu ser,
Eu não era o que sou.

E se a estrela da tarde não brilhasse;
E se não fosse o vento que embalou
Meu coração e as nuvens nos seus braços,
Eu não era o que sou.

Ai, se não fosse a noite misteriosa
Que meus olhos de sombras povoou
E de vozes sombrias meus ouvidos,
Eu não era o que sou.

Sem esta terra funda e fundo rio
Que ergue as asas e sobe em claro voo;
Sem estes ermos montes e arvoredos
Eu não era o que sou.


( As Sombras )


A UM HOMEM


Tu que desceste enfim à negra vala,
Sem que ouvisses um grito ou um lamento,
A grande voz do mar que nos embala,
A voz dos pinheirais e a voz do vento…

Tu que não viste a luz do Firmamento
E nem soubeste, em êxtase, adorá-la;
Tu que nunca tiveste o sentimento
Do aroma triste que uma flor exala!...

Tu que não choras, vendo uma flor morta
Ou um pobre que bate à tua porta,
No redentor suspiro derradeiro,

Nunca foste, meu triste semelhante
Nem por acaso, apenas por um instante,
Durante a vida, um homem verdadeiro…


( Sempre )


A UMA FONTE QUE SECOU


Com teus brandos murmúrios embalaste
Os minutos dos meus primeiros dias.
E pelos teus gemidos os contaste;
Eu era então feliz e tu fugias.

As minhas velhas árvores regaste,
O meu jardim ao sol reverdecias…
E quando as tuas lágrimas choraste,
Como a dor que hoje sofro entenderias!

Mas, ai, tudo mudou! Seca estiagem
Bebeu, a arder em febre, as tuas águas;
Versos de água cantando a minha imagem.

Raios de sol que as fontes evaporam,
Levando para Deus as suas mágoas,
Secai também os olhos dos que choram!


( Terra Proibida )

NOITE

Noite velha, por sobre
A terra fria e nua,
A muda ondulação
Da escuridão flutua.
Onde a treva é mais densa
Há gestos doloridos
E vultos a chorar
Que perdem os sentidos.
Uma chuva miúda
E triste nos beirais
Põe murmúrios de dor,
Misteriosos ais…
De tudo a solidão
Extática dimana,
E cada cousa veste
Uma expressão humana…
E entre elas e o infinito
Há diálogos profundos.
Enche a noite sem fim
A ignota voz dos mundos…

( Dispersos )

CANÇÃO LUARENTA

Vem do Marão, alta serra,
O luar da minha terra.

Ora vem a lua nova
Que é um perfil
De donzela falecida…
Nas claras noites de Abril,
Em névoa de alma surgida,
Anda a errar.
E a suspirar,
Em volta da sua cova…

Ora vem a lua cheia…
Rosto enorme
E luminoso,
N’ um sorriso misterioso,
Por sobre a aldeia
Que dorme…

Vem do Marão, alta serra,
O luar da minha terra!


( Terra Proibida )


MEU CORAÇÃO


Da terra uma semente pequenina
Abre ao sol, em sorrisos de verdura.
E o rubro raio aceso que fulmina,
Rasga o seio da nuvem que é ternura.

Ao longo da erma e pálida colina,
Um doce fio de água anda à procura
De alguma rosa angélica e divina,
Abandonada e morta de secura.

Meu forte coração também nasceu
Para criar cantando um novo céu.
Ninguém lhe entende a mística harmonia.

Lembra remota estrela desmaiada
Que mal se vê na abóbada azulada.
Mas para um outro mundo, é grande dia.


( Terra Proibida )

A UMA OVELHA


Entre as meigas ovelhas pobrezinhas
Que eu guardo pelos montes, uma existe
Que anda longe, balindo, sempre triste
E vive só das ervas mais sequinhas.

Que presentes na alma? Que adivinhas?
Etérea voz de dor acaso ouviste?
Que foi que tu nas nuvens descobriste?
Não és irmã das outras ovelhinhas!

Sobes às altas fragas inclinadas,
E contemplas o sol que desfalece
E as primeiras estrelas acordadas…

E assim ficas a olhar o céu profundo;
Faminta dessa relva que enverdece
Os outeiros e os vales do Outro Mundo.


( Vida Etérea )


A SOMBRA HUMANA


Quando passeio ao longo dos caminhos,
Batem asas de medo os passarinhos;
Escondem-se os répteis no tojo em flor.
Minha presença espalha um trágico pavor
Nas pobres criaturas
Que vivem neste mundo, assim como às escuras!

Avezinha fugindo ao ruído dos meus passos,
Se o que eu sinto por ti, acaso, pressentisses,
Tu virias fazer o ninho nos meus braços…
Virias ter comigo, ó pedra, se me ouvisses!


( Vida Etérea )


DEPOIS DA VIDA


Quando o meu coração parar desfeito
Em sombra, na profunda sepultura,
E o meu ser, já fantástico e perfeito,
Vaguear entre o Infinito e a terra dura;

Quando eu sentir, enfim, todo o meu peito
A transformar-se em constelada Altura;
Eu, divino Fantasma, claro Eleito,
O Enviado da Vida à Morte escura;

Quando eu for minha lúcida esperança,
Meu próprio amor jamais anoitecido,
E a minha sombra apenas for lembrança;

Quando eu for um espectro de Saudade,
Entre o luar e a névoa amanhecido,
Serei contigo, Amor, na Eternidade.


( Elegias )


CANÇÃO FINAL

Aí vem a noite velhinha:
Erma sombra entrevadinha,
Mal pode andar, de cansada.

Já o dia se avizinha,
Já desponta a Madrugada…

E a noite triste e sozinha,
Tão pálida e fatigada
Da sua longa jornada,
Deita-se e dorme… E a Alvorada
É o sono bom da Noitinha…

E a noite dorme quentinha
Na cama que lhe foi dada…

Dorme, dorme, sossegada,
Noite de Deus, sombra minha,
Que o teu sono é madrugada…

Ó erma noite velhinha
Dorme e sonha descansada…


( Senhora da Noite )


HORA FINAL

Aí vem a noite… Sente-se crescer…
E um silêncio de estrelas aparece.
Quem é, quem é, meu Deus, que empalidece
E se cobre de cinzas no meu ser?

Alma que se desprende numa prece…
Que suave e divino entardecer!
Como seria bom assim morrer…
Morrer, como a paisagem desfalece.

Morrer quase a sorrir devagarinho
Ser ainda do mundo pobrezinho
E já pairar, sonhando, além dos céus,

Morrer, cair nos braços da ternura;
Morrer, fugir, enfim à morte escura,
Sermos, enfim, na eterna paz de Deus!


( Terra Proibida )
O ETERNO


Perante o Eterno
Só vejo a eternidade,
E a Humanidade vejo
Perante os homens.
Vendo uma rosa, vejo Flora,
E o Júpiter Tonante
Nas trovoadas do Marão.
E um reflexo de sol,
Nas águas do meu tanque,
Dá-me o retrato
Do Deus Apolo,
Encaixilhado em pedra.
E o que há de Ninfa,
Ao luar, na minha fronte,
Alveja, além,
De líquidos murmúrios,
Num silêncio
Que é de prata.


( Últimos Versos )


PAZ

Como ao terror do Inferno
Sucedeu
O horror do Nada!
A inquietação moderna,
A antevisão
Da cósmica catástrofe,
Prometida
Por sábios e teólogos
Apocalípticos.
Divino Orfeu, vem tu, salvar-nos.
Tange de novo a Lira!
Amansa as feras.
Que o teu cantar volatilize
A estátua em bronze do Deus Marte!
A esculpa, em oiro amanhecente,
Sobre o mais alto
Píncaro do mundo,
O Anjo simbólico
Da Paz!


( Últimos Versos )


F I M

Porto da Paiã, Junho de 2003

Publicado por FRASSINO MACHADO em 14/08/2009 às 15h17
 
14/08/2009 14h59
UM POETA PARA A ETERNIDADE





UM POETA PARA A ETERNIDADE



Comunicação do professor Assis Machado

Biblioteca Camões – 21-06-2003



«O HOMEM COM O MUNDO DENTRO DE CASA»



TEIXEIRA DE PASCOAES

( 1877 – 1952 )


O POETA SAUDOSISTA
DE
“MARÂNUS”




PASCOAES
o
“Príncipe de Amarante”

MARÃO – “Deste lugar vago, sonâmbulo, espectral, emerge a obra do autor d’ O Pobre Tolo e de Marânus.
Considerado por ilustres pensadores lusos como «o nosso único romântico completo», de percepção mística e alucinatória, principal teorizador do saudosismo, deixou-se atravessar por um animismo panteísta numa escrita em que comparecem os temas do tempo e da morte: «O homem é o ser que revive, a cada instante, ou melhor ainda o ser onde a morte se repete».
Pascoaes assume na Arte Poética a mesma enorme dimensão que o autor de Humus atingiu na Prosa. Tanto Pascoaes como Raul Brandão – que privaram na amizade e na convivência de Letras e Humanidades – representam na Literatura Portuguesa a mesma projecção e simbolismo do estado de alma lusitana muito traduzidos e conhecidos em países estranhos e quase ignorados dentro das fronteiras da nossa Cultura. O mesmo que acontece, por exemplo, com o grande Jorge de Sena.
Alguém saberá quais as razões, fatalistas ou não, que estarão por detrás desta triste realidade?

Cinquentenário da morte de Teixeira de Pascoaes

Para que conste das preocupações de todos os poetas / poetisas de língua portuguesa, e não só, já que se torna evidente a necessidade imperativa da partilha deste enorme património que é a Poética Lusitana e ao mesmo tempo a sua própria valorização e requalificação no contexto da Poética Mundial.
O caminho mais imediato, na nossa opinião, para alcançar este desiderato é a leitura permanente da Obra / Testemunho daqueles que são para nós modelos na forma, na essência, no espírito e no exemplo mesmo de vida que nos deixaram.
Prof. Assis Machado
www.frassinomachado.net


Pensamentos de Teixeira de Pascoaes



«Ermo e vago, / Nestas salas fantásticas, divago…/ Enquanto a minha imagem se dilui, / Outras tomam ao pé de mim, vulto perfeito.» (Sempre)

«E Marânus, tão triste, empalidece: Quem sabe se tu és, ó criatura, / Um espectro mais próximo e visível?/ Uma sombra mais densa e mais escura?» (Marânus)

«Tivesse sido de homens e não de Anjos/ O meu primeiro exército…/ O Céu seria hoje o meu Império!» (Regresso ao Paraíso)

«Nascer é forçar a tampa de um sepulcro. A palavra ‘Mãe’ significa terra. O corpo da mulher é mais feito de terra que o do homem. O homem é pedra e fogo, incandescência solar, espectro a arder». (O Bailado)

«O pobre tolo, / Ébrio de luz, sorri, contente. O riso / É luz, essa virtude das estrelas / E dos tolos de Deus…/ (O Pobre Tolo)

«O Outono é uma doença das árvores e da minha alma que desfalece, com elas, e fica sozinha, numa paisagem moribunda.» (Livro de Memórias)




TEIXEIRA DE PASCOAES – “PRÍNCIPE DE AMARANTE”


DADOS BIGRÁFICOS DO POETA


1877 – 2 de Novembro: nasce, em São João de Gatão, Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos, filho legítimo de João Pereira Teixeira de Vasconcelos, prócer ilustre da monarquia liberal, e de Carlota Guedes Monteiro, de antigas famílias da região.
1883 – Inicia em Amarante os estudos primários.
1895 – Vai prosseguir estudos secundários em Coimbra. Publica o primeiro livro de versos – Embriões – que repudiará, como os dois que lançará, em edição fora de mercado, nos dois anos seguintes (mas já assinados “Teixeira de Pascoaes”, do nome do solar paterno).
1896 – Matricula-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.
1898 – Publica Sempre, o primeiro livro a revelá-lo como original poeta.
1899 – Publica Terra Proibida, o segundo dos grandes livros.
1901 – Forma-se em Direito, em Coimbra, onde fora amigo e contemporâneo dos poetas Afonso Lopes Vieira (1878-1947) e Augusto Gil (1873-1929).
1902 – Publica a 2ª edição de Sempre, correcta e aumentada de sessenta poemas novos, dando assim início a um processo de publicação da sua obra poética, em que refunde e amplia os livros, e de uns para outros transfere poemas, a cada edição.
1903 – Publica Jesus e Pã, que não voltará a reimprimir.
1906 – Exerce no Porto a advocacia que abandona dois anos depois, dedicando-se exclusivamente à literatura, aos ideais republicanos, e à administração das propriedades da família.
1911 – Funda, no Porto, com Jaime Cortesão, Leonardo Coimbra, e outros, o Grupo “Renascença Portuguesa”, destinado a pugnar pela elevação cultural da República, e cujo órgão passa a ser a revista Águia, que dirige, do início (Dezembro de 1910) até 1917.
1912 – Publica a sua discutida conferência O Espírito Lusitano e o Saudosismo, que é de certo modo um manifesto da escola que se formara à sua volta.
1903- 1925 – Prossegue uma infatigável actividade criadora. Em que raro é o ano em que, entre edições transformadas e acrescentadas, ou obras novas de verso ou prosa poética, não publica mais de um título, alguns dos quais obras das mais importantes como As Sombras (1907), Senhora da Noite (1909), Marânus (1911), Regresso ao Paraíso (1912), Verbo Escuro (1914), Elegia da Solidão (1920), Cantos Indecisos (1921), O Pobre Tolo (1924), etc.
1924-34 – Dedica-se à revisão da sua obra poética completa, de que saíram sete volumes, cujo sexto, O Pobre Tolo, é uma obra inteiramente diversa da do mesmo nome anteriormente publicada, e não apenas a sua metrificação.
1929 – Publica Livro de Memórias.
1934 – Publica São Paulo, o mais célebre e o primeiro dos vários estudos filosófico-biográficos a que passou a dedicar-se.
1949 – Publica Versos Pobres, retomando publicamente o verso como expressão literária, ao fim de um quarto de século de quase total abandono dele.
1951 – Aceita a homenagem promovida pelos estudantes de Coimbra, e que se transforma numa consagração nacional e extra-oficial.
1952 – 14 de Dezembro: morre na sua casa de Pascoaes, freguesia de São João de Gatão, concelho de Amarante, distrito do Porto, deixando pronto um volume de poemas (Últimos Versos, 1953), em que, sem nada trair da sua personalidade, aparece integrado na poética modernista, pela extrema concisão e pela ausência de musicalidade ostensiva, como aliás já sucedera com os Versos Pobres de 1949, que a crítica não sucedeu como devia.


BIBLIOGRAFIA DO AUTOR

Ordenação criteriosa segundo
Jorge de Sena

Indicam-se apenas as obras mais importantes, com as suas reedições mais significativas, ou as que especialmente foram mencionadas, por qualquer razão, nos «Dados Biográficos» e no «Estudo Crítico».


1895 – Embriões, Porto.
1896 – Bello, 1ª parte, Coimbra.
1897 – Bello, 2ª parte, Coimbra.
1989 – Sempre, Coimbra.
1899 – Terra Proibida, Coimbra.
1902 – Sempre, 2ª edição correcta e aumentada, Coimbra.
1903 – Jesus e Pã, Porto.
1906 – Vida Etérea, Coimbra.
1907 – As Sombras, Lisboa.
1909 – Senhora da Noite, Porto.
1911 – Marânus, Porto.
1912 – Regresso ao Paraíso, Porto; O Espírito Lusitano e o Saudosismo, Porto; Elegias, Porto.
1913 – O Doido e a Morte, Porto; O Génio Português na sua Expressão Filosófica, Poética e Religiosa, Porto.
1914 – A Era Lusíada, Porto; Verbo Escuro, Porto.
1915 – A Arte de Ser Português, Porto.
1916 – A Beira num Relâmpago, Porto.
1917 – Terra Proibida (2ª edição), Porto.
1919 – Os Poetas Lusíadas, Porto.
1920 – Elegia da Solidão, Amarante; As Sombras (2ª edição), Porto.
1921 – O Bailado, Lisboa; Cantos Indecisos, Coimbra (incluindo também «Senhora da Noite», «O Doido e a Morte», As «Elegias», e a celebra «Elegia do Amor»).
1922 – A Caridade, Porto.
1923 – Regresso ao Paraíso (2ª edição), Porto.
1924 – Elegia do Amor (2ª edição), Lisboa; O Pobre Tolo, Porto; Jesus Cristo em Lisboa (teatro, em colaboração com Raul Brandão), Lisboa; Vida Etérea (2ª edição, incluindo «Elegias do Amor»), Lisboa.
1925 – Londres (poemeto), Lisboa; Cânticos, Lisboa; Dom Carlos (teatro em verso), Lisboa.
1928 – Livro de Memórias, Coimbra.
1934 – São Paulo, Porto.
1935 – Painel (com ilustrações de Almada Negreiros), Lisboa.
1936 – São Jerónimo e a Trovoada, Porto.
1937 – O Homem Universal, Lisboa.
1940 – Napoleão, Porto.
1942 – O Penitente (Camilo), Porto; Duplo Passeio, Porto.
1945 – Santo Agostinho, Porto.
1949 – Versos Pobres, Porto.
1950 – O Empecido (novela), Porto; Guerra Junqueiro, Porto.
1951 – Calvário (soneto inédito), Amarante; Aos Estudantes de Coimbra (discurso); Os Dois Jornalistas (novela), Porto.
1953 – Últimos Versos, Lisboa.
1957 – Epistolário Ibérico (Cartas de Pascoaes e Unamuno), Nova Lisboa.

s/d (1924-1934) – OBRAS COMPLETAS, sete Volumes publicados, Lisboa: 1.º Vol., Sempre e Terra Proibida; 2º Vol., As Sombras, O Doido e a Morte e Senhora da Noite; 3º Vol., Cantos Indecisos, Vida Etérea e Elegias; 4º Vol., Marânus; 5º Vol., Regresso ao Paraíso; 6º Vol., O Pobre Tolo (elegia satírica); 7º Vol., Verbo Escuro e A Beira num Relâmpago.

s/d (1965-70) – OBRAS COMPLETAS (Poesia), seis Volumes, Lisboa: 1º Vol., Belo, A Minha Alma, Sempre, Terra Proibida; 2º Vol., À Ventura, Jesus e Pã, Para a Luz, Vida Etérea; 3º Vol., As Sombras, Senhora da Noite e Marânus; 4º Vol., Regresso ao Paraíso, Elegias e O Doido e a Morte; 5º. Vol., Cantos Indecisos, Londres, Dom Carlos, Cânticos, O Pobre Tolo; 6º Vol., Painel, Versos Pobres, Últimos Versos, Dispersos. Introdução e aparato crítico de J. Prado Coelho.
Esta Edição além de tornar acessível a vasta obra do Autor, vale pela visão crítica do organizador, ensaisticamente patenteada naquela introdução, para mais útil pela informação sobre o desenvolvimento da personalidade poética de Pascoaes. A Introdução está no 1º Volume.


*

TEIXEIRA DE PASCOAES, “PRÍNCIPE DE AMARANTE”

Comunicação
de
Assis Machado


UM POETA PARA A ETERNIDADE

No Auditório da Biblioteca Camões – ao Chiado
A 21 de Junho de 2003


Tópicos de Desenvolvimento

Aspectos biográficos introdutórios
A mensagem saudosista de Teixeira de Pascoaes
“Linhas mestras” da poética pascoaesiana
Identidade literária de Pascoaes – Conclusão


Bibliografia consultada


BOTELHO, Afonso, Saudosismo como Movimento, 1960
CARVALHO, Joaquim de, Reflexões sobre T. de Pascoaes, 1991
CESARINY, Mário, Poesia de Teixeira de Pascoaes, 2002
COELHO, J. Prado, A poesia de Teixeira de Pascoaes, 1999
COELHO, J. Prado, Dicionário de Literatura, 1994
DIONÍSIO, Sant’ Ana, O Poeta, Essa ave metafísica, 1954
FRANCO, Antº. Cândido, O Mar e o Marão, 1989
FRANCO, Antº. Cândido, Tese de doutoramento
sobre T. de Pascoaes, 1997
LETRAS, Jornal de, Nº. ded. a Teixeira de Pascoaes, 1993
LOURENÇO, Eduardo, Tempo e Poesia, 2003
LOURENÇO, Eduardo, O labirinto da Saudade, 2000
MARGAR, Alfredo, T. de Pascoaes, A Obra e o Homem, 1961
POESIA, Cadernos de, Nº. ded. a Teixeira de Pascoaes, 1993
SARDOEIRA, Ilídio, Pascoaes, um Poeta de Sempre, 1951
SENA, Jorge de, A poesia de Teixeira de Pascoaes, 1982


TEIXEIRA DE PASCOAES,”PRÍNCIPE DE AMARANTE”


UM POETA PARA A ETERNIDADE


Prof. Assis Machado


1. Aspectos biográficos introdutórios


Teixeira de Pascoaes, mais propriamente Joaquim Pereira de Vasconcelos, nasceu na freguesia de Gatão, concelho de Amarante.
Aqui, no Liceu, fez os seus primeiros estudos, sem destaques de maior, em conformidade com alguns testemunhos do seu tempo.
Passou, em 1896, de Amarante para a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Nesta sua etapa estudantil teve como companheiros alguns dos que viriam a ser mais tarde notáveis homens de Letras, tais como Afonso Lopes Vieira, Augusto Gil, Gomes Teixeira, além de outros, com os quais terá iniciado a sistematização dos seus primeiros conceitos literários. Após a formatura, em 1901, dedicou-se algum tempo à advocacia, tanto na vila de Amarante como na cidade do Porto.
Terá sido logo a seguir ao massacre do Terreiro do Paço, em 1908, facto que muito o impressionou – já que o seu próprio pai era um monárquico convicto e em cuja homenagem, recordando o acontecimento trágico, escreveria um teatro em verso, com o nome precisamente de Dom Carlos e que dedicaria ao seu progenitor – que teria aderido convictamente à ideologia republicana. Todavia, por circunstâncias diversas e adversas, nunca se tornaria um militante activo.
Na sequência da implantação da República, entusiasmado com a causa, como todo o mundo na altura, e não deixando a sua já alta paixão à Literatura, tomou a iniciativa na companhia de alguns vultos célebres da nossa Cultura de fundar no Porto, em 1911, o grupo Renascença, tendo como Órgão de divulgação aquela que viria a tornar-se famosa no mundo das Letras: a revista «Águia». Com ele emparceiraram nomes como Jaime Cortesão, Álvaro Pinto, Leonardo Coimbra e outros. Este Grupo viria a ser a “alma” do Movimento Cultural e Artístico que se veio a apelidar de Renascença Portuguesa.
Como objectivos desta Sociedade/Movimento poderemos destacar: «promover a maior cultura do povo português, por meio de Conferências, Manifestos, Revistas, Livros e Bibliotecas, Escolas, etc. Foi na revista Águia que Teixeira de Pascoaes expôs a sua célebre e original teoria do Saudosismo, doutrina/pensamento com que esperava orientar a mentalidade portuguesa para o seu verdadeiro sentido histórico e elevá-la acima das meras paixões e ambições políticas, que já se anteviam virem a tornar-se daninhas com o evoluir dos acontecimentos e com a aplicação no terreno dos novos ideários que, entretanto, não corresponderam às expectativas justamente sonhadas e ambicionadas por toda a sociedade.
Na verdade as polémicas e as celeumas foram tantas que o nosso autor, desgostoso, nostálgico e mesmo desiludido, deixou a direcção da Águia, pelo ano de 1917, decidindo refugiar-se à sombra do Marão, onde passaria a levar uma vida contemplativa, sem outras actividades que não fossem a literária e os trabalhos rurais para subsistência do seu clã de Pascoaes.


2. A mensagem saudosista de Teixeira de Pascoaes


Não podemos jamais falar de Teixeira de Pascoaes sem que nos orientemos numa postura mental muito sui generis, em todo o mundo literário e artístico nacional, mentalidade esta à qual se dá o nome de “Saudosismo” ou melhor mensagem saudosista.
O grande mentor e construtor deste edifício humanístico – tão magistralmente delineado por Pascoaes – foi, pela sua própria sugestão e crença na Nação, nada mais nada menos que a Alma do Povo Português sempre manifesta nos momentos cruciais da sua história. É nas páginas de A Águia que se pode encontrar a verdadeira presença da “Alma Portuguesa”, de cujo enamoramento o nosso Autor não se consegue libertar. Pascoaes, ao longo dos sete anos em que dirigiu a revista, vai esboçando, por sucessivas etapas, as características profundas do também profundo pensamento.
Os alicerces para a construção do pensamento pascoaesiano serão: a “Saudade pela mão da Esperança” e o “Saudosismo pela Criação”. Porque, no seu dizer, “Criação quer dizer Saudade”. Na mesma obra estas ideias vão-se aos poucos sistematizando em conteúdos nem sempre de início suficientemente claros. O Autor apresenta uma espécie de filosofia ético-psicológica da raça lusa que faria a ponte entre o passado histórico e direccionaria logicamente o futuro. A este evoluir, a este elo, chamar-lhe-á «Saudosismo», conceito que entrará sob a forma de mito na nossa Literatura.
Diz Pascoaes: “é preciso… chamar a nossa raça dispersa e despertá-la para a sua própria realidade essencial, para o sentido genuíno da sua própria vida”. Segundo ele, essa realidade essencial consiste na Saudade. Diz noutro local: “a Saudade é o próprio sangue espiritual da raça, o seu estigma divino, o seu perfil eterno”. Claro que se trata da Saudade no seu sentido mais profundo, verdadeiro, essencial, isto é, o sentimento-ideia, a emoção reflectida, onde tudo o que existe, corpo e alma, dor e alegria, amor e desejo, terra e céu, atinge a sua unidade divina.
A quem lê hermeneuticamente toda a obra de Pascoaes fica sempre a sensação de que o Autor pretende descobrir uma «originalidade» dentro do tradicionalismo dos princípios do Século. A alma dum Povo manifesta-se pela palavra. É evidente que do ‘passado português’ apenas nos resta a palavra escrita. A saber: a literatura erudita e a literatura popular. Manuseando atentamente toda a profundidade da nossa Literatura, nas duas vertentes enunciadas, Pascoaes descobre nela uma atitude genuína do Português perante a vida: a Saudade, aquele ente que faz reagir o homem, a Saudade que o faz sofrera dor de ser imperfeito, a Saudade que o leva a desejar a pura vida anímica, a Saudade que o arrasta, através da imaginação, a tentar realizar o que ainda está por fazer, a Saudade que não é propriamente tanto a nostalgia daquilo que se teve e daquilo que se foi (sob a forma de Lembrança / Memória colectiva), como também a nostalgia daquilo que se aspira ter ou vir a ser (na perspectiva da Esperança). Este ‘Saudosismo’ incarnado no pensamento / ideário pascoaseano, aparentemente passadista e utópico, tem como constatamos verdadeiramente uma genuidade própria da Alma Lusíada, nas suas raízes: mentalidade (espiritualidade), na Cultura, nas próprias formas de representação simbólica, tipicamente nacionais, etc.
Na sua “vaga inicial” as teorias e interpretações de Pascoaes, acerca do Saudosismo, foram secundadas com um certo entusiasmo por espíritos bem lúcidos e competentes da Renascença Portuguesa:
- Leonardo Coimbra levantou-se a identificar o Saudosismo como um autêntico Sebastianismo esclarecido, revelado à partida pela nova geração de poetas;
- Jaime Cortesão, como exímio historiador, investigava no passado, nas genuínas fontes da Nacionalidade, uma metodologia inspiradora para uma renovação em ordem ao futuro;
- O próprio Fernando Pessoa, que mais tarde sabemos seguirá literariamente por outras vias, chegou a defender que os poetas saudosistas estavam a anunciar o pensamento da «futura civilização europeia». Suspeitou até o aparecimento do poeta supremo da nossa raça, um Super-Camões, que seria obviamente o Poeta Supremo da Europa. E a Raça Lusa, orientada por esses espíritos fora-de-série, partiria à descoberta de novas Índias…
No bojo desta vaga de Saudosismo vislumbra-se a vibrar sinceramente uma forte exaltação sebastianista, elevado patriotismo místico… mas, às últimas consequências, poder-se-á intuir que o espírito que nos advém das nossas especulações dificilmente se libertará do mito e da utopia.
Nas páginas da Águia esvoaçaram bem alto alguns projectos literários de renome, para além dos já citados, tais como: Mário Beirão, António Correia de Oliveira, Augusto Casimiro, Sá Carneiro, João de Barros, Teixeira Braga, Raul Proença e António Sérgio. Mas nem todos estes autores se deixaram imbuir por uma ideologia homogénea:
- Correia de Oliveira e Afonso Lopes Vieira, ficaram-se pelo culto da Tradição e da Terra Portuguesa. Nos poemas do primeiro, como nos de Pascoaes, perpassa um sentimento religioso vagamente panteísta. O segundo, fica-se por glosar a lenda e a história, evocando de diversas maneiras tanto a literatura erudita como popular;
- Afonso Duarte chega a imprimir traços de modernismo a um conteúdo de raiz vincadamente saudosista, na linha conceptual de Pascoaes;
- Jaime Cortesão afirmou-se como um poeta eloquente e poderoso.
Sob as diferenças acidentais que individualizam estes vultos das nossas Letras, dos quais o “Decano” é nada mais nada menos que o nosso Teixeira de Pascoaes, subsiste um denominador comum: o amor à terra, o humanismo heróico, a exaltação dos sentimentos simples, fortes e generosos.


3. Linhas mestras da Poética Pascoaesiana


Há uma ideia geral de que Teixeira de Pascoaes é um dos poetas difíceis da Literatura Portuguesa.
Subsiste a ideia de que o nosso ‘grande público’ não o compreende. Por isso mesmo, por razões preconceituosas de carácter técnico-cultural, vai-se colocando de lado o Autor… à espera quiçá de uma regeneração oportuna. Todavia, cá dentro e mesmo no estrangeiro, altíssimas sumidades do Mundo das Letras continuam a maravilhar-se extasiados ante a profundidade e o carisma do seu pensamento.
Cabe-nos a nós, nomeadamente no âmbito da celebração do Cinquentenário do nosso Autor, que ainda está decorrendo em muitas localidades e Instituições portuguesas (Recitais, Comunicações, Cursos Especializados, Exposições e outras iniciativas), cabe-nos a nós dizia eu, deslindar esta como que “letargia literária” através de uma dinamização tanto mais conseguida quanto mais nos predispunhamos a essa tarefa. Trata-se de descobrirmos as linhas mestras fundamentais que nos conduzam à descodificação (entenda-se descoberta), da mensagem que Teixeira de Pascoaes nos legou. Personificando ele, mais que ninguém, o paradigma do escritor-filósofo compreende-se que tenha abandonado, ao longo da sua evolução, o tradicional lirismo da Poética Portuguesa. A sua poesia é acima de tudo pensamento.
- Pascoaes é, assim, um poeta místico-metafísico. Ora agnóstico, ora à procura do Absoluto, vive numa constante inquietação religiosa. Ele torna-se para nós uma espécie de vidente/visionário, sempre a questionar-se sobre o mistério das coisas, embora permanecendo sempre no mais puro subjectivismo e num idealismo crítico profundamente romântico.
- Toda a realidade é trans-sensorial. Em Homem Universal (1937) manifesta-se contra o Materialismo e sobretudo contra o Positivismo do fim do Século. Não se trata de anatemizar a Ciência … mas muito simplesmente ele afirma que “a essência das coisas é de natureza poética e não científica”, como que concluindo que o mundo criado pela imaginação do poeta é o único real. Em Sempre (1902), progressivamente começou a afastar-se da realidade sensível, optando por uma realidade mais-além. Como visionário convicto ele tenta encontrar em todas as coisas o reflexo de um além. Em Sombras (1907), fecha-se quase completamente no castelo da sua intimidade, acabando por se diluir, voluntariamente ou não, na imensidade do Cosmos, contemplando o intemporal. Conclui na sua convicção de que o homem só no Cosmos é que se consciencializa.
- O circunstancialismo das formas. Este fenómeno, sob o ponto de vista objectivo, conduz o nosso poeta a um como que estado de Panteísmo, onde o Cristianismo e o Paganismo (Jesus e Pan) se encontram dissolvidos. Sendo Teixeira de Pascoaes partidário de uma concepção unitária do mundo, encheu de pampsiquismo e animismo (para ele as coisas têm alma) os seus melhores versos.
- O Saudosismo. Já expus. Aquando da anterior explanação do ideário da Renascença Portuguesa e de A Águia, os tópicos mais sensíveis do Saudosismo. Não me vou repetir obviamente.
Quero, porém, destacar que, para Pascoaes, “o momento presente mal tem sentido”. Todos nós vivemos do passado, que já foi, e do futuro, que está para vir. Vive-se do passado pela Lembrança e vive-se do Futuro pela Esperança. Diz ele: “A Lembrança e a Esperança são as íntimas energias que trabalham o ser… as duas casadas dão na Saudade… A primeira prende o homem a tudo o que passou e a segunda a tudo o que há-de vir”. Sendo uma espécie de exilado da realidade, aspirando sempre por algo distante, algo que está para além do sensível, convencido do contingentismo da matéria, cheio de saudades do que ele próprio foi e do que há-de ser, que conflitos não agitarão a alma do nosso poeta?
Todavia esta dinâmica, que poderemos considerar psico-humanista, nada mais constitui que os eternos problemas do homem. O nosso Autor atingiu-os, de facto, plenamente e é por isso que ele é apreciado e admirado.


4. Identidade literária de Pascoaes – Conclusão


Como todos sabemos Teixeira de Pascoaes, a par de Camões, Eça de Queirós, Eugénio de Castro, Fernando Pessoa e poucos mais, têm uma larga audiência na intelectualidade estrangeira.
As suas primeiras Obras, incluídas aqui tanto a Poesia como a Prosa, têm sido traduzidas nas principais Línguas da Cultura ocidental e, em alguns casos, em Línguas de índole civilizacional diferente. Quero lembrar que há Edições em Castelhano, Francês, Italiano, Inglês, Alemão, Húngaro, Holandês, Checo e até Russo. Só me refiro, como é óbvio, às principais. Isso prova cabalmente o interesse que desperta a Ideologia e a Arte deste insigne escritor e Poeta.
- No que diz respeito à Prosa, Pascoaes optou mais pelas Biografias, algumas delas famosas. A escolha das personalidades biografadas privilegiou tipologias que lhe servissem para encarnar várias das suas inquietações ou problemáticas espirituais, com as respectivas soluções. Foi assim com: São Paulo (1934), Santo Agostinho (1945), São Jerónimo (1936), Camilo/O Penitente (1942) e Napoleão (1940).
- Na forma poética, tendo ficado alheio às inovações dos modernistas, que já no seu tempo faziam furor, preferiu quase sempre o jeito clássico (Sonetos, Tercetos, Redondilhas e de quando em quando versos livres). O seu estilo não é muito coloquial, devido ao cunho metafísico que sempre patenteou – e que os leitores não deverão descurar nas suas análises e reflexões – bem assim o vocabulário erudito que utiliza, do uso frequente de imagens e símbolos. O seu poder de síntese nos Sonetos é espantoso, usando frequentemente de uma via discursiva notável.
Há quem afirme, direi eu, em jeito de conclusão, que daqui a umas dezenas de anos a Obra de Teixeira de Pascoaes será lida e meditada por
Então, finalmente, nos daremos conta de que o nosso Escritor, que ora homenageamos, é de facto um dos grandes vultos da nossa Literatura
Contemporânea e, sob o ponto de vista da Arte, há-de ser sempre verdadeiramente UM POETA PARA A ETERNIDADE!


Assis Machado
21 – 06 – 2003


SAUDADE E POESIA
Eduardo Lourenço

“Criação quer dizer saudade…”
T. de Pascoaes, Verbo Escuro


“Para a radical mobilidade da nossa vertiginosa vida e para o gritante silêncio com que clama absurdamente por si mesma, onde encontraremos uma mais sensível figura que nessa Saudade em que o mesmo Pascoaes resumiu o nosso ser profundo? Enganam-se os que vêem nela apenas a disposição anímica prevalente da nossa particular existência. É só uma atenção aguda ao que ela traduz o que nos pode ser imputado. Enganam-se mais ainda os que nela denunciam a mera complacência pelo nosso passado.
A Saudade é a sensível existência humana, a si mesma inacessível e próxima. Inacessível porque próxima. Como a de Teseu, a nossa circular aventura decorre num labirinto buscando o dono dele, desde sempre aí esperando-nos, mas impossível de tocar se para ele não nos encaminham os fios do amor e da esperança. São eles que nos asseguram o regresso que a Saudade significa. Nela vemos que os meandros sem fim da nossa caminhada não conseguiram expulsar-nos incircunscrita do instante. Quem encontramos é o mesmo que buscava, o labirinto é a própria busca antes que a Saudade, de súbito, a faça reverter para o lar da nossa perpétua infância. Aí vemos que o esquecimento não triunfou, que o instante onde enraizamos corre imóvel sob o seu reflexo tornado criatura a que chamamos Tempo.
A segunda vez, o re-conhecimento que a Saudade manifesta é a verdadeira primeira vez, terra de nascimento e não túmulo.
Com profunda justiça foi que Pascoaes lhe chamou Criação…”


Eduardo Lourenço
In O labirinto da saudade
Nice, 2003


Porto da Paiã, Junho de 2003

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Publicado por FRASSINO MACHADO em 14/08/2009 às 14h59
 
05/07/2009 04h36
O Conquistador da Pop
Meu caro Michael,
não quero ser hipócrita - dizendo que sempre te adorei e à tua obra - todavia desde muito cedo reconheci na tua postura uma personalidade ímpar de lídimo Conquistador. Em certa medida, o mundo Pop, nos anos oitenta e noventa, esteve indelevelmente nas tuas mãos. Dentro da tua própria estoricidade foste um artista conquistador e esse mesmo mundo te reconheceu como tal. Deste modo aqui te deixo as merecidas homenagens a que tens direito. Um abraço eterno do poetAmigo
Frassino Machado

Publicado por FRASSINO MACHADO em 05/07/2009 às 04h36



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